Por Thiago Caldeira
Nos livros de teoria
econômica, o conceito de externalidade é
definido como o efeito provocado pela ação de um indivíduo/entidade que afeta
pessoas não diretamente relacionadas àquela ação. Ocorre uma externalidade
quando há consequências para uma terceira pessoa que não são levadas em
consideração por quem toma a decisão.
Haveria externalidade positiva quando o efeito é benéfico e
haveria externalidade negativa
quando gera prejuízo a uma terceira pessoa. Exemplo clássico da externalidade
negativa seria uma fábrica que lança resíduos químicos em um rio e, a
quilômetros de distância, um pescador tem sua atividade prejudicada. Exemplo
clássico de externalidade positiva seria a atividade de apicultura, quando as
abelhas polinizam as árvores frutíferas da chácara vizinha.
Externalidade
positiva, infelizmente, é a expressão abstrata utilizada pelas
pessoas fofas, boazinhas e supostamente preocupadas com o bem comum, para
justificar políticas públicas de custos bastante evidentes, mas de benefícios
totalmente desconhecidos.
A prática é reforçada pelo
fato de que não há no Brasil o costume de avaliar os custos e benefícios dos
gastos públicos, sendo que o orçamento de um ano muitas vezes apenas repete o
que foi no ano anterior. Ademais, as políticas públicas são comumente paridas
apenas a partir de boa vontade, de uma ideia com lindo discurso retórico,
quando não claramente demagógico, como se o inferno não estivesse lotado de
pessoas bem intencionadas.
Vejamos o caso do programa
Ciência sem Fronteiras. O programa consiste no pagamento, pelo governo, de
bolsas a estudantes do ensino superior (graduação ou pós) para que supostamente
aperfeiçoem sua formação no exterior em instituições previamente cadastradas.
No valor da bolsa estão assegurados o pagamento de passagem aérea, seguro
saúde, matrículas e auxílios diversos. Em 2015, o custo do programa somará R$3,5
bilhões, resultando no valor aproximado de R$ 60.000,00 anuais por aluno. Para
efeito de comparação: o custo anual por aluno nas universidades públicas
brasileiras é de R$22.000, e no ensino médio é de R$5.500 reais.
Como justificar os gastos no
programa Ciência sem Fronteiras? Resposta muito ouvida nas rodas de buteco:
externalidades positivas a serem geradas pelos estudantes que estão no
exterior. A ideia é linda: os estudantes ganharão massa crítica nas melhores
universidades do exterior, voltarão para o Brasil e farão pesquisa científica,
que gerará evolução tecnológica, ganhos de produtividade, empregos e riqueza ao
país. A pesquisa científica que essas pessoas supostamente irão realizar no
Brasil, mesmo que no interesse puramente privado, transbordará benefícios para
a coletivamente.
Observe que não há qualquer
garantia para a sociedade de que isso seja realizado, não há qualquer cálculo
de custo/benefício e não há maiores detalhes sobre qual a evolução científica e
como ela resultará em benefício para a sociedade como um todo. Basta falar em
externalidade positiva e o assalto ao bolso do pagador de impostos está
justificado.
Constatado que os benefícios são incertos e sabendo que os custos são bastante conhecidos, o que por si só já seria suficiente para colocar o Ciência sem Fronteiras sob análise, vejamos a seguir que há outros custos para a sociedade que devem ser considerados:
- o poder público tributará os cidadãos, os pobres inclusive, para pagar o custo de alunos estudarem ensino superior no exterior;
- como não há nenhum limite para aluno com elevada renda familiar participar do programa e tendo em vista que os mais pobres muitas vezes não têm acesso ao ensino superior, resta que o programa criado pelo governo gera desigualdade de renda. Tal conclusão resulta de uma dedução lógica a partir dos fatos que a realidade demonstra.
O uso infeliz do conceito de
externalidade positiva também é
aplicado para políticas públicas como subsídios nos empréstimos do BNDES,
gastos públicos com eventos culturais por meio da Lei Rouanet (supostos benefícios
do sentimento de “identidade cultural e civilismo”), entre outros. Os discursos
são sempre bonitos, mas a verdade é que os custos são bem conhecidos e os
benefícios são um enorme chute.


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